Da Necessidade da Compaixão

Na Natureza vale um “princípio de imparcialidade: processos iguais sujeitos a condições iguais (recursos e tratamento) produzem resultados iguais”. O princípio vale também para os comportamentos e atitudes de indivíduos humanos, que são o resultado de seus processos biológicos e psicológicos, de seus processos de criação, educação, assim como de condições econômicas, políticas, sociais e culturais vividas. Em condições ideais de equivalência entre dois indivíduos, atitudes e comportamentos seriam, em princípio, semelhantes.

A Natureza funciona sem privilégios, ela não faz diferenças, é imparcial; tudo acontece nela de modo que o que vale para um, vale para todos. Suas leis de funcionamento não têm preconceitos e valem igualmente para tudo e todos. Os indivíduos humanos, sem mérito ou demérito, para cada um e todos, são o resultado de seus processos biológicos, psicológicos e de seus processos de criação, educação, assim como de condições econômicas, políticas, sociais e culturais vividas.

A imparcialidade tem que ser vista do ponto de vista de que o que acontece na Natureza tem que ser encarado como natural, isto é, como resultado da ordem natural das coisas; se acontece com Chico é natural e pode acontecer com Francisco. Como todos os indivíduos são “feitos do mesmo barro” o natural é que, por uma questão de imparcialidade, tenham que “beber da mesma água”, para, nas mesmas estradas da vida, matar a mesma sede; não se pode, pois, dizer: “desta água não beberei”.
Pelo que foi artificialmente estabelecido pelos homens, como a moral, ética ou cultura vigentes, pode acontecer que atitudes e comportamentos observados na realidade do dia a dia não sejam considerados normais, corretos ou sadios; no entanto, o que vale e importa é que são naturais, já que ocorrem na Natureza, portanto no contexto da ordem natural das coisas!

Se está acontecendo com alguém é porque é natural e poderia estar acontecendo com qualquer um. Pode até não ser considerado normal e certo, mas se está acontecendo é por possibilidade da ordem natural que aconteça; e já que poderia estar acontecendo com qualquer um , mesmo que com indignação e condenação, é melhor que não haja preconceito e intolerância; é melhor que haja compaixão racional, isto é, atitude de compreender processos anormais de outros indivíduos, com atitude de “pesar pelo sofrimento ou erro alheio”, por saber que pela imparcialidade com que tudo acontece na Natureza, o melhor que se pode fazer é decifrar o que com os outros acontece de modo a se blindar de atitudes, comportamentos e situações de vida semelhantes.

O racional é também que o indivíduo se encare com naturalidade, sem sentimentos ou atitudes de recriminação autodestrutiva, quando são os seus processos os que fogem da “normalidade vigente”, provocando desaprovação, reação e condenação, nos ambientes em que vive. O racional é que ao lidar consigo mesmo o indivíduo também exerça autocompaixão oportunista e calculista de autoperdão e de ter a atitude de querer perceber e identificar as condições que produziram seus processos anormais, querendo ter chance de saber com elas lidar tolerante e satisfatoriamente, de modo a superá-las ou corrigi-las se for possível ou, em não sendo, com elas viver com naturalidade.

Na convivência de indivíduos humanos existentes, cada um tem suas particularidades e uma infinidade de experiências e conhecimentos que são só seus. Assim, o racional é que a compaixão, além da naturalidade no trato com outros indivíduos, leve também à humildade natural nos relacionamentos e convivências, pois há sempre uma infinidade de diferenças que permitem oportunidades de aprendizado uns com os outros.
Se não houver compaixão, não há como se conseguir convivência pacífica, harmônica e construtiva entre as pessoas. A compaixão é necessária para viabilizar a convivência apesar de diferenças que sempre existem entre etnias, crenças religiosas, sistemas socioeconômicos ou culturas.

A compaixão deve ser vacina eficaz contra a inveja e a revolta que poderiam ser causadas por outros indivíduos terem méritos que os diferenciam em conhecimento, experiência, habilidade e ou competência, e que os colocam em condições com maiores poderes de ação, decisão e responsabilidades, na vida em organizações humanas. Por uma questão de imparcialidade, cada indivíduo há de querer para outros indivíduos o que haveria de querer para si: reconhecimento, valorização e admiração para os méritos conseguidos pelo uso de dons de nascença e aproveitamento de oportunidades de criação, educação, condições sociais e culturais. Revolta e indignação devem ser reservadas para a falta de oportunidades, como causa de desigualdades.

Não é racional o egoísmo de pretender o direito a privilégios, desrespeitando a ordem natural e imparcial de igualdade de oportunidades. A pretensão de indivíduos de direitos a condições diferenciadas, sem que tenham méritos, é uma forma extremamente danosa de falta de compaixão e acaba sempre se sustentando em preconceitos, intolerâncias e injustiça, criando situações de conflitos que ferem a liberdade de opinião e expressão, criando sempre condições de desigualdades sociais e econômicas.

A pergunta crucial, e ainda sem resposta, é se há esperança para a civilização humana? Se será vencido em tempo o desafio de conseguir conhecimento que ajude os indivíduos humanos a efetivar evolução que acarrete comportamento predominante de egoísmo racional de prática da compaixão? A capacidade de aprendizado e entendimento é a característica humana para vencer esta corrida contra o tempo.

Se não houver compaixão, não há como se conseguir convivência pacífica, e construtiva entre as pessoas. A compaixão é necessária para viabilizar a civilização humana, apesar de diferenças que sempre existem e existirão entre etnias, crenças religiosas, sistemas socioeconômicos ou culturas. Face à inexistência de parcialidade e privilégios nos processos da Natureza, a compaixão é necessária, como comportamento racional de convivência, para viabilizar ambientes coletivos de vida saudáveis.

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